Fale um pouco sobre você
Nasci no interior do interior de Flores da Cunha, numa localidade chamada Travessão Paredes. Paredes foi o nome do agrimensor que dividiu as terras da minha comunidade.
Quem incentivou você a escrever?
Primeiro foi meu pai, ele estudou no Colégio Murialdo de Ana Rech de onde trouxe uns três ou quatro livros depenados; sem capa, algumas folhas arrancadas, rabiscados. Lembro que ele lia umas histórias pra mim à luz de velas. Eu ficava com aqueles personagens do mundo dos livros povoando a minha cabeça. _”Você conhece a estória dos 35 Camelos do Malba Than?” Dizia papai em seu entusiasmo pela leitura.
A segunda grande incentivadora foi uma professora de português a Bernardette Soldatelli. E o terceiro grande empurrão recebi de um dos maiores e mais brilhantes críticos literários que o Brasil já teve que foi o José Paulo Paes que escreveu um ensaio sobre meu livro "Minuto diminuto" de 1990.
Como você começou a escrever?
Comecei cedo, lá pelos sete, oito anos de idade, quando ainda usava calças curtas. Produzi meu primeiro livro com papel de embrulhar pregos e cola caseira. Era mais um amontoado de letras em meio à desenhos de estrelas, flores e borboletas que mais se pareciam com o mosquito da dengue. Versos que mais tarde faziam suspirar as meninas e envergonhavam a professora Helena. No jardim da minha vida / Plantei um pé de bromélia / Se você não casar comigo / Troco de nome e viro Amélia. Graças a Deus o livro só teve um leitor: EU.
Depois dei um tempo. Andei meio perdidaço na vida. Achava que minha praia fosse a música. Fiz um violão com linha de nylon usada para pescar e vivia com aquele negócio pra cima e pra baixo. Somente lá pelos 14 retomei o gosto pela escrita.
Qual a matéria que você mais gostava na escola?
Talvez esteja decepcionando vocês, mas não foi Português, não. Português era muito complicado para mim que usava no dia-a-dia o dialeto vêneto (Talian) e só falava o português na escola. O português tinha mais regras e leis do que o atual Código de Trânsito. Com muitos sinais de advertência e proibições. Aquilo me deixava meio engessado. Eu gostava era de matemática; fazer contas, resolver equações, essas coisas de conjuntos, etecétera. Vocês conhecem a estória dos 3 amigos que foram a um Café. A conta deu R$ 30. Cada um deu 10. Houve engano. A conta deu 25. O garçon pegou os 5 tirou 2 pra ele e devolveu 1 real pra cada um. Foram ver. Cada um pagou 9 que dá 27 + 2 do garçon = 29. Onde é que foi parar 1 real da história?
Quais são teus escritores favoritos?
Na poesia, Manoel de Barros, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Adélia Prado, Gregory Corso, Ginsberg, Lorca...
Na prosa: Raduan Nassar, Machado de Assis, Rubem Braga, Charles Dickens, Kafka, Gabriel Garcia Marquez...
No juvenil: Mark Twain, Carlo Colodi, Pedro Bandeira, Ivan Ângelo...
Li muito Jorge de Lima, Casimiro de Abreu, Cecília Meireles, Vinícius de Moraes, Mário Quintana e Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa de olhos fechados, tentando devolver a mim mesmo. O primeiro contato com a beleza daqueles versos foi terrível.
Mais tarde, li outros e outros grandes poetas: Manoel de Barros, Frederico Garcia Lorca, Rimbaud, Eliot, Adélia Prado, Ginsberg, Pablo Neruda, Jorge Luiz Borges, Leminsky...
Na prosa, li Cervantes, Goethe, Shakespeare, Raul Pompéia, Italo Svevo, Joyce, Camus, Moravia, Raduan Nassar, Salinger, Machado de Assis, Rubem Braga, Charles Dickens, Kafka, Gabriel Garcia Marquez... li também os escritores dos clássicos russos e muitos outros. Na literatura infanto-juvenil, Monteiro Lobato, Júlio Verne, Lewis Carroll, Mark Twain, Pedro Bandeira, Ivan Ângelo, Carlo Collodi, com o seu inesquecível Pinóquio.
Como é o processo de trabalho (a rotina de criação)?
Posso dizer que a minha rotina ou o meu método de trabalho é no sentido literal grego, ou seja, "méthodos" - "meta" e "hodos", "caminho". Quer dizer, adoto o método do caminho incerto, da descoberta, de procurar alguma coisa e encontrar outra totalmente diferente. Não nutro maior simpatia pela palavra "método" no sentido literal latino que é a ordem que se segue na investigação da verdade. Não guardo hora e nem local para escrever. Também não creio em inspiração como se fosse um favor dos deuses. Sento diante da tela em branco do computador e começo a escrever.
Qual seu estilo literário?
Quem conhece minhas obras percebe que tenho um estilo muito pessoal, ou seja, uma marca própria. Disso me orgulho, pois como disse o poeta Mário Quintana é melhor escrever sofrivelmente mas com estilo próprio do que copiar os outros.
Quanto tempo leva para se escrever uma obra?
No meu caso, levo em torno de dois anos. Às vezes o tempo varia para cima ou para baixo. Geralmente é para cima. Costumo escrever e guardar numa gaveta. Somente após um tempo releio aquilo com um certo distanciamento e senso mais crítico. É como uma floresta que a gente enxerga melhor estando de fora dela.
Escrever dá dinheiro?
Pergunta pertinente. Depois de ter publicado mais de 20 obras e ter vendido mais de 40 mil exemplares, estou tão rico que só tiro as mãos do bolso para abanar da minha Ferrari. Claro que é puro delírio. Com o dinheiro da venda dos livros não compro nem o sono para dormir de noite. Quem ganha dinheiro escrevendo livros são escritores como Paulo Coelho que já vendeu em torno de 150 milhões de livros e mais alguns poucos afortunados. Para mim, escrever é vocação e não profissão. Estranho falar isso, porque o dinheiro hoje em dia compra tudo, até os etecéteras...
Qual foi o maior desafio de sua vida como escritor?
Todos os desafios imagináveis e inimagináveis. Deixe que me explico. Para começar, nasci no interior do interior de Flores da Cunha, sem nenhum acesso ao mundo dos livros. As únicas obras de que tenho lembrança que tinha lá em casa quando criança eram meia dúzia de revistas e jornais velhos. Mais tarde, já morando na cidade de Flores da Cunha, o desafio foi conseguir publicar o primeiro poema. Não havia jornal e nem rádio. Toda a semana, durante um ano ou mais, enviei dois ou três poemas, via correio, ao jornal Eco do Vale de Bento Gonçalves, até que publicassem o primeiro poema. Vencida esta etapa, precisei transpôr mais um desafio: encontrar um editor que publicasse meus poemas. Isto aconteceu em 1984, quando três poemas meus foram selecionados para integrar uma Coletânea Literária organizada pelo poeta Sangar Vidal de Porto Alegre. Fora isso, os desafios para um escritor são enormes, como a falta de apoio e de reconhecimento.
Qual conselho dá para aqueles que sonham em escrever?
O escritor precisa saber olhar a verdadeira face da vida, olhar para as coisas a seu redor como se tivesse acabado de nascer. Outra coisa: quem tem muita facilidade de escrever não é escritor, é orador. Daria um ótimo político, advogado, vendedor ou sei lá o quê... É preciso desenvolver os recursos para prender o leitor no papel. Olhar a vida mais profundamente, e não sobre as pequenas experiências que podem ser contadas por qualquer um. Nem vale apelar para as soluções medíocres ou aos trocadilhos meio infames, como: “eu sou, eu serei, euforia”. Ah, tem que ter muita disciplina. Acima de tudo, é preciso adquirir bagagem cultural. De minha parte, escrevo e leio menos que gostaria. E continuo insatisfeito achando que estou apenas começando.
Como elaborar uma lista de bons livros?
Segundo a Dalila Teles Veras, o melhor é oferecer uma não-lista de boa leitura. Primeira: não pare em frente à prateleira colocada à entrada da livraria; não vale a pena. Invariavelmente, encontra-se ali tudo o que a moda quer empurrar goela abaixo do leitor incauto.
- Segunda: Vá direto aos fundos da livraria ou às prateleiras quase rentes ao chão, pois ali costumam estar escondidas preciosas pepitas.
- Terceira: fuja do livro de páginas perfumadas, do otimismo em gotas, das pílulas concentradas de sabedoria, dos tratados sobre sexo de anjos, das receitas de sucesso fácil e de toda a perfumaria barata desse comércio-engodo que oferece métodos para todo tipo de felicidade.
- Quarta: desconfie dos títulos. Pedaços de Mim, Retalhos de Mim, Sofrimentos de Mim, Sombras de Mim, Memórias do que fui, etc. Todo escritor medíocre ou em começo sempre acha que a sua vida daria um romance ou um livro de poesia.
- Quinta: Não se impressione com as listas dos mais vendidos: apesar da enorme quantidade de literatura estrangeira, isso não é motivo para imaginar que não haja boa literatura brasileira disponível. Pelo contrário, nem tudo o que merece grandes campanhas de marketing representa a melhor opção. Raramente frequentam essas listas escritores excelentes como Deonísio da Silva, Raduan Nassar, Caio Porfírio Carneiro, Álvaro Alves de Faria, José J. Veiga, Luiz Vilela, Dalton Trevisan, Murilo Rubião, Hilda Hilst, Lya Luft, Manoel de Barros, e muitos outros nossos contemporâneos. Isso, sem falar nos já clássicos Murilo Mendes, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, José Cândido de Carvalho, Ascenso Ferreira, Lima Barreto, Joaquim Cardozo, Mário Faustino, Jorge de Lima, Mário Palmério, unanimidades críticas mas ainda tão distantes dos leitores.
- Sexta: Não esqueça dos sebos. Saiba que eles existem em grande quantidade e nem sempre são sinônimos de babel e de caos? É possível encontrar ali, lançamentos recentes e raridades, convivendo pacificamente à espera de curiosos e garimpeiros à busca das tais pepitas.
- Sétima: Pode ser que o melhor seja não seguir nenhuma destas não-regras e cada um elaborar seu próprio anti-roteiro de boa leitura, para ser (des)obedecido na visita às livrarias e bibliotecas, afinal, você deve fazer parte daqueles leitores que nem sempre estão dispostas "a ir por ali".
Você lê bastante?
Antes de ser escritor fui — e continuo a ser — leitor. Os livros sempre foram meus grandes companheiros desde a meninice, muito embora hoje em dia escreva e leia menos do que gostaria.
Na infância e na adolescência, a leitura não era apenas minha distração predileta, mas também a chave que me abria o mundo. Ela me anunciava o futuro: identificando-me com heróis de romance, através deles pressentia meu destino. Nos momentos ingratos da minha juventude, salvou-me da solidão. Mais tarde, ajudou-me a ampliar meus conhecimentos, a multiplicar minhas experiências, a compreender melhor minha condição de ser humano e o sentido do meu trabalho de escritor.
De qualquer maneira, acredito que todos deveríamos escrever e ler muito, desde bula de remédio até o verso da passagem de avião e de ônibus para conhecermos nossos direitos. Esse é um caminho decisivo para o indivíduo expressar e reconhecer sua cultura, e também entender diferentes hábitos e costumes. No entanto, o ato de ler é um exercício, e como tal, para que os efeitos sejam duradouros, deve ter continuidade. É a apuração do conhecimento adquirido que leva à quebra de fronteiras e à capacidade de entender bem mais do que o texto escrito atrás da passagem de avião. A leitura é indispensável em qualquer momento da vida, tempo e lugar.
O livro transmite pensamentos, traduz emoções, estimula a imaginação e o sonho, permite que nossas vivências cotidianas se transformem em um mundo cheio de encantos e seduções, dando à vida um sentido intelectual e espiritual de inestimável valor.
Do que um escritor precisa?
O escritor necessita de apenas duas coisas na vida: ser lido e ser reconhecido.
Tanto uma como a outra coisa são difíceis de obter. E é bom que se diga logo que o escritor não tem a ilusão de enriquecer ou virar celebridade por conta do seu ofício. Para ser lido é preciso, primeiramente, ter acesso a uma editora para publicar os originais. Claro que me refiro estritamente ao livro e a literatura de ficção. Estar em livro por si só, não garante que o texto publicado venha a ser lido. Como dizia o nosso Mário Quintana (se não estou enganado), o leitor é um passarinho distraído que precisa ser conquistado com delicadeza até ele vir comer na sua mão.
Se for para recorrer a uma outra imagem, o escritor é um caçador de borboletas, muito hábil que vai lá fora no jardim com a sua pequena rede e emprega artifícios e sutilezas, muitas vezes com uma persistência e teimosia irritantes, para pegar esses insetos das antenas clavadas. Ainda mais nos dias de hoje em que as borboletas praticamente sumiram dos nossos jardins, deixando o caçador atirando sua redezinha contra o vento.
Então é isso, o escritor que consegue ser realmente lido e não apenas citado nas rodas de conversa de pseudo-leitores, alcançou um feito e tanto.
Infelizmente, o escritor, como o porco só é apreciado depois de morto.
Como você vê o futuro do livro?
Na verdade, a primeira morte do livro teria sido anunciada a mais de um século, com a revolução industrial de 1870, embora Machado de Assis, Proust, Kafka e Fernando Pessoa estivessem ativos e produzindo seus clássicos nessa época.
No início do século XX, com o lançamento do Ford Model T, por Henry Ford, que em poucos anos vendeu mais de quinze milhões de unidades, as Cassandras afirmaram que agora sim a literatura de ficção estava com os dias contados. As pessoas preferiam usar o carro para passear, fazer compras, se divertir e namorar em vez de ficar em casa lendo.
Pouco depois, veio o cinema. Segundo pesquisas da época, de cada cem pessoas, oitenta freqüentavam o cinema e apenas duas tinham o hábito de ler. Não demorou nada para aparecer a televisão (terceira pá de cal). Com a televisão, os grandes videntes da época diziam que as pessoas trocariam o livro pela televisão. Ninguém mais pegaria um livro na mão, com as novelas, os filmes, os programas de auditório a funcionarem como poderosos imãs, ninguém mais perderia tempo lendo um livro.
Na década de 80 apareceu o computador e a internet para jogar mais algumas pazadas de cal sobre o livro e a leitura. Quem ainda leria um livro diante das facilidades e interatividade oferecidas pela rede mundial de computadores? Apesar de achar a internet fascinante sob o ponto de vista de pesquisa, acesso ao mundo da leitura, da democratização da cultura, o livro no sentido que todos nós conhecemos creio que irá persistir.
O que é crônica?
A crônica surgiu em 1799 na França, no Journal des Débates, Consistia de um comentário que vinha no rodapé das notícias veiculadas no jornal.
No Brasil, começou com José de Alencar, primeiro cronista de qualidade. Rubem Braga elevou a crônica a um gênero nobre. Deu-lhe status. Hoje em dia temos bons cronistas, como Marta Medeiros, a própria Maitê Proença, Ricardo Freire, Ivan Angelo, Luis Fernando Veríssimo, entre outros.
O que é escrever?
Escrever é falar no papel. Na verdade o medo acaba inibindo a pessoa de escrever. Para perder esse medo, o primeiro passo é escrever como se estivesse falando. Escrever sem medo e sem preguiça, fazer vários rascunhos. Ler o texto em voz alta. Tudo isso são técnicas. Aprender a escrever é, em grande parte, se não principalmente, aprender a pensar, aprender a encontrar idéias e a concatená-las, pois, assim como não é possível dar o que não se tem, não se pode transmitir o que a mente não criou ou não aprisionou.’’
Por que o trabalho escritor pode ser comparado ao de uma aranha tecedeira?
As aranhas fazem suas teias muito rapidamente.
Em meia hora ou quarenta minutos, mesmo aquelas teias grandes e lindamente geométricas ficam prontas. Escrever rapidamente e chegar ao término de seu projeto....
As aranhas fazem teias apoiadas em algum lugar.
Repare que mesmo as teias mais intrincadas precisam ter várias linhas que as ancorem a pedras e árvores, de modo que não se rompam com o impacto do inseto. O equivalente na escrita é a ligação com a realidade. Mesmo a ficção mais delirante, a poesia mais fantasiosa, precisa ter linhas firmes e resistentes de conexão com o mundo real...
As aranhas fazem teias para capturar insetos.
Esses animais não perdem tempo fazendo teias para outra coisa que não seja enriquecer sua dieta de proteínas. Na escrita, isso quer dizer uma preocupação em construir tramas para capturar a imaginação do leitor e nada mais. Charmes estilísticos, efeitos literários, citações profundas devem ser todas deixadas de lado se não contribuírem para enredar o leitor na história.
As aranhas constróem suas teias onde há insetos.
Nossas práticas professoras se empenham em armar suas redes onde muitas vítimas em potencial voejem, pulem ou passeiem. O que escritores devem aprender com isso é escrever suas histórias para públicos que existem, ou seja, grandes grupos de pessoas que possam se interessar por aquele tema e abordagem.
As aranhas fazem teias invisíveis.
É evidente que o inseto não pode enxergar a teia antes de bater de encontro a ela, ou simplesmente fará um desvio em seu plano de vôo. Do mesmo modo, se o leitor perceber como a trama foi construída – com excesso de lógica ou pouco suspense, por exemplo – certamente perderá o interesse e escapará da leitura.
As aranhas refazem suas teias sempre que necessário.
Se você jogar talco numa teia para enxergá-la, dali a pouquinho sua proprietária a desmanchará e fará uma nova teia, mais leve e menos visível.
As aranhas não ficam presas em suas próprias teias.
Apesar de a maioria dos fios das teias serem pegajosos, as aranhas sabem onde colocar suas oito patas para não ficarem presas em suas construções. O escritor-aranha aprende com isso a não ficar fascinado com seu próprio trabalho...
As aranhas fazem muitas teias.
Uma vez que necessitam de bastante proteína, as aranhas precisam caçar uma quantidade respeitável de insetos por dia. Sendo assim, não perdem tempo em fazer uma nova teia assim que terminam uma refeição. O recado dado a você, escritor, é fazer muitos projetos, escrever bastante, incorporar a escrita às suas rotinas diárias para conseguir atingir o objetivo de criar bastante e ter muitos leitores.
Por que usar ilustrações nos livros?
As ilustrações nos livros oferecem muitos esclarecimentos. A ilustração, de certa forma, ajuda a explicar o tema e dá ao leitor indicações cronológicas e históricas essenciais da obra. Por fim, as ilustrações oferecem cadência e ritmo ao que está sendo contado e ajudam a situar o leitor na história.
É difícil publicar um livro?
Há duas formas de publicar um livro: edição independente cujos custos são arcados pelo próprio autor ou por meio de uma editora. No Brasil, há bastante editoras, porém meia dúzia domina o mercado. Record, Objetiva, Companhia de Letras, Ática (especializada em livros didáticos), Siciliano... Antes de mais nada, o escritor deve enviar os originais da obra ao editor. Se tiver muita sorte, chegam as mãos dele. Em seguida, o editor passa os originais ao Conselho Editorial que irá proceder a uma avaliação, podendo indicar ou não a obra para publicação. Isso demora de seis meses a um ano. Normalmente os Conselheiros retalham o texto todo e o devolvem ao autor para que o conserte. Volta para o Conselho. Passando pela avaliação, acontece o processo de revisão. No mímino, duas revisões são efetuadas. Enquanto isso, é feito o projeto gráfico. Entra aqui um capista e o diagramador. Concluído o trabalho, finalmente o livro vai para a impressão. O serviço é terceirizado, pois poucas editoras têm gráfica própria. Os exemplares impressos chegam às livrarias, consignados (recebe depois que vende) através de um distribuidor, também terceirizado. Alguns poucos vão para a imprensa para divulgação. No fim da história, o autor ganha em torno de 10% do preço de capa.
Para você deve ser muito fácil escrever?
Para responder a esta pergunta, gosto de usar uma metáfora. Comigo não acontece aquele negócio de apertar um botão e aparece a inspiração, muito pelo contrário, eu preciso ir lá no tanque e bater e bater, torcer e torcer a roupa até tirar água suja. Outra comparação que costumo usar é como tirar uma poeirinha de rádio de uma tonelada de minério. É verdade. Fazer um poema, um bom poema, pode me dar mais trabalho do que constuir uma casa. Só para finalizar, acho que escrever é construir e não decorar, ou seja, literatura é arquitetura e não decoração de interiores. Os adjetivos só enfeitam, não acrescentam muito à estrutura.
Quais as técnicas que você utiliza para escrever?
Escrevo para saber o que quero escrever. Escrevo para que as pessoas ouçam a voz dos meus silêncios. Nunca começo pelo título, em qualquer gênero: conto, crônica, narrativa, e poesia. O título vem no final. Minuto Diminuto, meu livro de poesia mais conhecido, foi entitulado horas antes de ir para a gráfica. Junto com o poema que lhe dá o título. Sento-me em frente a tela em branco do computador, normalmente sem saber o que vou escrever, a qualquer hora do dia ou da noite. Também tenho o hábito de escrever textos em prosa, muitas vezes sem nenhum valor literário e depois, vou depurando-os até extrair deles um poema.
Qual é a razão que leva você a escrever?
Escrevo para salvar a mim mesmo e não a meu semelhante. Escrevo não para dar-me a conhecer, mas para conhecer-me melhor. Não quero salvar ninguém. Não escrevo para esperando que o leitor se torne um bom padre, um bom médico ou um bom advogado. Escrevo porque sinto que tenho muito dos outros em mim. Tenho muito do medo e da insegurança dos outros. Das angústias, das inquietações dos outros. Ou talvez, escreva para achar-me nos outros. Para ser mais preciso, escrevo para matar a saudade de Deus. A necessidade de escrever me belisca o tempo todo. Resumindo: escrevo, não porque quero, mas porque preciso, como preciso respirar. Não vivo para escrever, mas escrevo para viver.
Quais são os direitos do leitor?
1. O direito de não ler.
2. O direito de pular páginas.
3. O direito de não terminar um livro.
4. O direito de reler.
5. O direito de ler qualquer coisa.
6. O direito ao bovarismo (doença textualmente transmissível).
7. O direito de ler em qualquer lugar.
8. O direito de ler uma frase aqui e outra ali.
9. O direito de ler em voz alta.
10. 0 direito de calar.